É possível prevenir artrose nos joelhos?

O que é osteoartrite?

Conhecida popularmente como artrose, a osteoartrite é uma doença degenerativa da cartilagem articular que se desenvolve ao longo de 10 a 15 anos. Interfere com as atividades de vida diária e com a capacidade de trabalho dos indivíduos. Muitos pacientes toleram a dor, acreditando que as dificuldades que vêm com a doença fazem parte do processo do envelhecimento.

É a doença reumática mais prevalente(1), e a principal causa de incapacidade física e diminuição da qualidade vida da população acima de 65 anos. Acomete principalmente as articulações que suportam peso, como joelhos e quadris.

Os dados disponíveis internacionalmente mostram uma prevalência de 20% de artrose de joelho em indivíduos acima de 65 anos e de 40% de 75 a 84 anos(2). Os estudos sobre custos de saúde com a doença demonstraram que 90% das substituições de articulações dos membros inferiores ocorreram em casos de artrose de joelho(3). Essa doença também foi associada a uma mortalidade aumentada, principalmente por causas cardiovasculares, sendo a inatividade física um fator importante(4).

No Brasil, cerca de 4% da população é acometida pela osteoartrite, sendo mais comum na coluna vertebral, nos joelhos e quadris. A doença corresponde a 65% das causas de incapacidade funcional no nosso país(5).

História natural da doença

 

Sinais e Sintomas
Temos tanto os sinais radiográficos como os achados clínicos (relatados pelo paciente).
Na radiografia poderemos encontrar:
– crescimentos ósseos denominados osteófitos mais conhecidos como “bicos de papagaio”; e
– perda da cartilagem, visualizada pela diminuição do espaço entre os ossos que formam a articulação (fêmur e tíbia).
Vale ressaltar que cerca de 50% dos pacientes com radiografias que demonstram sinais de artrose não sentem dor ou outros sintomas(6). Existe uma visão de que os osteófitos, por exemplo, sejam uma resposta do organismo às lesões e à instabilidade da articulação, uma tentativa de estabilizá-la através do aumento da área de contato entre os ossos que fazem a articulação. Isso reduz a instabilidade e a dor por um tempo.
Fonte: Wikipedia
Apesar dos achados radiológicos, guias clínicos de países como a Suécia(7) e a Dinamarca(8) citam explicitamente que a radiografia não é necessária para o diagnóstico da Osteoartrite. Nas pesquisas científicas, os seguintes critérios clínicos são utilizados com maior frequência:
  • Dor;
  • Idade – normalmente acomete os indivíduos acima de 50 anos;
  • Rigidez articular;
  • Crepitação;
  • Dor nos ossos;
  • Crescimento ósseo nas articulações (com deformações nos estágios finais).
Na realidade, os estudos mais recentes têm demonstrado que a osteoartrite é uma doença sistêmica, ou seja, a inflamação da articulação tem diversas causas que atuam em conjunto(9), a saber:
  1. Fatores sistêmicos:
    1. Idade;
    2. Gênero;
    3. Obesidade – o aumento do tecido adiposo leva à produção de substâncias inflamatórias e à diminuição de substâncias de reparo (como o colágeno e as proteoglicanas) da articulação, e esse desequilíbrio promove a destruição da cartilagem;
    4. Inatividade – pessoas que praticam atividade física regular e diminuem ao máximo a quantidade de horas parado têm um fator protetor;
    5. Genética – algumas pessoas contêm genes que favorecem a dor e o aparecimento da degeneração;
  2. Fatores mecânicos:
    1. Obesidade – ou ganho de peso acelerado em alguma fase da vida, pelo próprio excesso de peso sobre as articulações de carga (coluna, principalmente lombar; quadril, joelho, tornozelo);
    2. Morfologia e alinhamento da articulação;
    3. Fraqueza muscular;
    4. Depressão;
    5. Ansiedade;
    6. Sensibilização da dor.
Obesidade x Osteoartrite de joelhos
Estudos realizados nos Estados Unidos demonstraram que o risco da artrose de joelhos surgir aumentou em 30,3% nos indivíduos obesos quando comparados aos que tinham índice de massa corpórea (IMC) normal(10). Outra pesquisa norte-americana com 1,180 estudantes de medicina do sexo masculino, com idades de 20 a 29 anos, demonstrou que a cada 8 kg de aumento de peso estava associado a um aumento de 70% do risco de osteoartrite 30 anos depois(11).
Numa outra postagem nessa série sobre artrose, serão exemplificados alguns fatores associados à manutenção e ao reganho da perda de peso; além de uma explicação sobre os fatores inflamatórios e mecânicos relacionados à obesidade que levam à destruição da cartilagem articular.
Lesões traumáticas x Osteoartrite de joelhos
Cerca de 12% do total de casos de osteoartrite de joelhos são considerados pós-traumáticos(12). A prevenção das lesões nessas articulações reduz o risco de consequências em termos de sintomas, função, participação no trabalho e em atividades recreativas, além de ser custo-efetiva: o curso de programas de prevenção é muito pequeno quando comparados à economia de se evitar uma futura cirurgia ortopédica.
A grande maioria das lesões de joelho ocorrem em esportes, e raramente são isoladas: ao contrário do que se pensava, pacientes com lesões em ligamentos cruzados normalmente apresentam em conjunto lesões dos meniscos, cartilagem, do próprio osso ou de ligamentos do joelho(13). Em torno de 50% dos indivíduos que lesionam o ligamento cruzado anterior desenvolvem osteoartrite nos joelhos em 10 a 15 anos, tenha sido ele submetido a cirurgia ou não(14,15).
Os fatores de risco mais comuns para essas lesões são:
  • Lesões no joelho mais graves, que necessitaram de atenção médica;
  • Histórico de cirurgia no joelho;
  • Dor persistente no último mês;
  • Sobrepeso ou obesidade;
  • Inatividade física;
  • Função muscular débil;
  • Histórico familiar de osteoartrite (influência genética).
Prevenção primária da lesão no joelho
A prevenção pode ser primária, com o objetivo de evitar o surgimento dos fatores de risco, ou secundária, que é a identificação precoce e tratamento dos fatores já existentes, evitando que a doença se torne mais grave. Um estudo com dados de 27000 indivíduos encontrou que exercícios proprioceptivos e neuromusculares são eficazes na prevenção de lesões de ligamento cruzado anterior do joelho em cerca de 50%(16). Sabendo disso, o desafio é manter esse hábito, de utilizar os treinos neuromusculares como forma de manutenção da qualidade muscular, prevenindo lesões a longo prazo. Inclusive seu uso é recomendado durante o aquecimento para práticas desportivas.
Prevenção secundária da osteoartrite de joelhos
Como já foi dito, os indivíduos que já sofreram lesão no joelho anteriormente apresentam risco aumentado de desenvolver a osteoartrite, além de terem maiores chances de apresentar os sintomas da osteoartrite – dor, função física alterada – e de chegarem ao sobrepeso ou à obesidade em até 10 anos, quando comparados a pessoas da mesma idade e sexo que não têm histórico de lesão(17). Dessa forma, quanto antes o indivíduo buscar reabilitação especializada após o evento lesional, melhor o resultado, inclusive com a possiblidade de evitar o surgimento e o agravamento de osteoartrite no futuro.
O treinamento neuromuscular também pode ser utilizado como fator de prevenção secundária. Enquanto na prevenção primária ele tem como alvo a evitar uma primeira lesão, na secundária tem por objetivo recuperar a movimentação normal do paciente. Melhorar o controle sensório-motor e buscar estabilidade funcional da articulação são consequências benéficas do seu uso. São exercícios que envolvem várias articulações e grupos musculares ao mesmo tempo, normalmente realizados em cadeia cinética fechada – ou seja, com apoio dos membros ou do corpo diretamente no chão ou na parede. A qualidade do movimento é observada, bem como o posicionamento do quadril, dos joelhos e pés, podendo-se variar a superfície de apoio, a velocidade de execução e a direção do movimento. Outros estímulos externos, como o arremesso de bolas, podem ser utilizados. Tudo deve ser executado da forma mais indolor possível.
Esse tipo de exercício pode ser associado ao treinamento de força para recuperação da lesão no joelho, porque fraqueza muscular é muito comum nesses casos, além de ser um fator de risco para o desenvolvimento da osteoartrite(18).
No consultório
O trabalho do fisioterapeuta no consultório é avaliar o histórico do paciente relacionado a todos os fatores já citados (IMC, atividade física, estilo de vida, lesões prévias), além de outros (consumo de água, fatores alimentares e viscerais que influenciam no controle do movimento), orientando o indivíduo no sentido de sua recuperação, com exercícios apropriados, baseados no seu nível de controle motor, sua força, amplitude de movimento das articulações, e na intensidade da sua dor. Orientações sobre mudanças no estilo de vida, nos ambientes de trabalho, estudo e lazer; superação das barreiras físicas e crenças que estejam atrapalhando a recuperação através de atitudes positivas e explicações baseadas em evidências científicas atualizadas. Muitas vezes esse trabalho passa pela necessidade de uma orientação conjunta com outros profissionais de saúde, devido à complexidade de fatores que participa dessa tarefa delicada de devolver a funcionalidade.
Resumindo…
Como recomendações, deve-se:
  • Monitorar o ganho de peso, principalmente se for rápido;
  • Avaliar a propriocepção, ou seja, a capacidade do corpo de reconhecer a localização espacial, sua posição e orientação durante as atividades diárias;
  • Avaliar a estabilidade das articulações e a função muscular;
  • Prevenir lesões no joelho ou,
  • Buscar acompanhamento para recuperação o quanto antes, naqueles que já sofreram lesão (submetidos ou não a cirurgias);
  • Manter-se ativo durante o dia, não apenas no horário atividade física. Ou seja, fazer pausas durante o trabalho e o estudo para levantar, alongar, tomar água;
  • Adotar posturas diversas para as atividades. Estudar no chão, em pé (existem mesas apropriadas para isso).
Lembrando que esse texto não esgota a temática da osteoartrite. Alguns tratamentos, como a suplementação com glucosamina e condroitina apresentam resultados discutíveis! Material para uma outra postagem!
E fico à disposição caso tenha restado alguma dúvida a respeito desse tema. Fique à vontade para entrar em contato ou deixar um comentário!
Referências
1.        Sartori-Cintra AR, Aikawa P, Cintra DEC. Obesidade versus osteoartrite: muito além da sobrecarga mecânica. Einstein (São Paulo) [Internet]. 2014;12(3):374–9. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-45082014000300374&nrm=iso
2.        Oliveria SA, Felson DT, Reed JI, Cirillo PA, Walker AM. Incidence of symptomatic hand, hip, and knee osteoarthritis among patients in a health maintenance organization. Arthritis Rheum [Internet]. 1995;38(8):1134–41.
3.        Hartvigsen J, Davidsen M, Sogaard K, Roos EM, Hestbaek L. Self-reported musculoskeletal pain predicts long-term increase in general health care use: a population-based cohort study with 20-year follow-up. Scand J Public Health. 2014;42(7):698–704.
4.        Kamil E. Barbour, Li-Yung Lui, MA, MS2, Michael C. Nevitt, PhD3, Louise B. Murphy, PhD1, Charles G. Helmick, MD1, Kristina A. Theis, PhD1, Marc C. Hochberg, MD, MPH4, Nancy E. Lane, MD5, Jennifer M. Hootman, PhD1  and JAC. Hip Osteoarthritis and the Risk of All-Cause and Disease- Specific Mortality in Older Women: Population-Based Cohort Study. 2015;67(7):1798–805. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4521765/pdf/nihms709101.pdf
5.        Rodrigues AJ. Cadernos da Escola de Saúde TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO NA OSTEOARTRITE DE JOELHO : REVISÃO DE LITERATURA . articular , rigidez matinal , crepitação , diminuição da amplitude de movimento articular e. 2015;101–14.
6.        Lawrence JS, Bremner JM, Bier F. Osteo-arthrosis. Prevalence in the population and relationship between symptoms and x-ray changes. Ann Rheum Dis [Internet]. 1966;25(1):1–24. Available from: http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=2453365&tool=pmcentrez&rendertype=abstract
7.        Socialstyrelsen. Nationella riktlinjer för rörelseorganens sjukdomar 2012 [Internet]. 2012. 1-122 p. Available from: http://www.socialstyrelsen.se/publikationer2012/2012-5-1
8.        Brostrøm S. Knæartrose – nationale kliniske retningslinjer og faglige visitationsretningslinjer. 2012. 10-78 p.
9.        Roos EM, Arden NK. Strategies for the prevention of knee osteoarthritis. Nat Rev Rheumatol [Internet]. Nature Publishing Group; 2015;12(2):1–10.
10.      Murphy L, Schwartz TA, Helmick CG, Renner JB, Tudor G, Koch G, et al. Lifetime risk of symptomatic knee osteoarthritis. Arthritis Care Res. 2015;59(9):1207–13.
11.      Gelber  a C, Hochberg MC, Mead L a, Wang NY, Wigley FM, Klag MJ. Body mass index in young men and the risk of subsequent knee and hip osteoarthritis. Am J Med. 1999;107(99):542–8.
12.      Brown TD, Johnston RC, Saltzman CL, Marsh JL, Buckwalter JA. Posttraumatic osteoarthritis: a first estimate of incidence, prevalence, and burden of disease. J Orthop Trauma [Internet]. 2006;20(10):739–44. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17106388
13.      Frobell RB, Roos HP, Roos EM, Hellio Le Graverand MP, Buck R, Tamez-Pena J, et al. The acutely ACL injured knee assessed by MRI: are large volume traumatic bone marrow lesions a sign of severe compression injury? Osteoarthr Cartil. 2008;16(7):829–36.
14.      Muthuri SG, McWilliams DF, Doherty M, Zhang W. History of knee injuries and knee osteoarthritis: A meta-analysis of observational studies. Osteoarthr Cartil [Internet]. Elsevier Ltd; 2011;19(11):1286–93. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.joca.2011.07.015
15.      Richmond S a, Fukuchi RK, Ezzat A, Schneider K, Schneider G, Emery C a. Are joint injury, sport activity, physical activity, obesity, or occupational activities predictors for osteoarthritis? A systematic review. J Orthop Sports Phys Ther [Internet]. 2013;43(8):515–B19. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23756344
16.      Gagnier JJ, Morgenstern H, Chess L. Interventions Designed to Prevent Anterior Cruciate Ligament Injuries in Adolescents and Adults: A Systematic Review and Meta-analysis. Am J Sports Med [Internet]. 2012;41(8):1952–62. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22972854
17.      Whittaker JL, Woodhouse LJ, Nettel-Aguirre A, Emery CA. Outcomes associated with early post-traumatic osteoarthritis and other negative health consequences 3-10 years following knee joint injury in youth sport. Osteoarthr Cartil [Internet]. Elsevier Ltd; 2014;23(7):1122–9. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.joca.2015.02.021
18.      Roos EM, Dahlberg L. Positive effects of moderate exercise on glycosaminoglycan content in knee cartilage: A four-month, randomized, controlled trial in patients at risk of osteoarthritis. Arthritis Rheum. 2005;52(11):3507–14.

 

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