A corrida silenciosa

Lesões nos membros inferiores são muito prevalentes durante a prática de esportes. Cerca de 77% das entradas de atletas de elite em hospitais estão relacionadas a esse tipo de lesão(1). Um estudo com 1512 praticantes de atividade física regular demonstrou frequências de lesões em tornozelo, musculatura posterior de coxa e joelho de 38%, 36,5% e 30,1%, respectivamente (2).

Uma das características do exercício que vem sendo relacionada a lesões é o impacto do membro inferior no solo durante as atividades, o qual tem sido avaliado através do som que o indivíduo produz ao tocar o chão no salto ou na corrida. E os resultados de orientações nesse sentido vem se mostrando favoráveis.

Por exemplo, num estudo com 1041 mulheres que receberam orientações de aterrissar silenciosamente durante sua prática desportiva a taxa de lesões do ligamento cruzado anterior do joelho foi 88% menor!

O barulho do contato do pé no chão durante atividades desportivas tem sido comparado com a medida da força de reação vertical do solo. Considerando que esses tipos de lesões estão associados a incapacidade a longo prazo e sobrecarga financeira importantes, diversos programas preventivos têm sido utilizados, como a orientação para que os atletas prestem atenção ao som produzido pelos choques dos seus pés com o solo. Um grupo de pesquisadores inglês investigou 80 adultos que praticavam esportes de forma recreativa observou uma diminuição de 13% no pico de força de reação vertical do solo no grupo que recebeu essa orientação(3). Outro estudo com 12 mulheres atletas encontrou uma redução de 24% nessa força(4).

Características da pisada silenciosa
Mas o que caracteriza uma pisada silenciosa, com menor vetor de força de reação vertical do solo, ou seja, menor impacto do solo sobre as articulações dos membros inferiores? No estudo supracitado das 12 atletas, foi visto um aumento de 7,5º (9%) na flexão de joelho  daquelas que foram instruídas a pisar silenciosamente.

Esse artigo foi um dos que estimulou pesquisas mais recentes, como a publicada em março no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy (JOSPT), um dos mais importantes periódicos científicos das áreas de ortopedia e fisioterapia relacionadas ao esporte. No estudo(5), os autores buscaram verificar a relação entre o som da pisada, a força de reação vertical do solo e os movimentos das articulações dos membros inferiores. 26 homens com idades em torno dos 21 anos foram instruídos a cair de uma altura de 30 centímetros de forma silenciosa, sendo avaliados através de câmeras e plataforma de força. E os achados foram muito interessantes:

– concordando com outros estudos pregressos, os indivíduos que aterrissaram de forma mais silenciosa receberam menor força de reação do solo. Observe na Figura 1 que os indivíduos que aterrissaram de forma mais silenciosa se encontram na porção mais inferior do gráfico, indicando menor força de reação do solo:

 (fonte: referência 5)

– para atingir o chão de forma mais silenciosa, os indivíduos tiveram de flexionar mais as articulações dos membros inferiores, principalmente do tornozelo e do joelho, como pode ser observado nas barras azuis, as quais indicam pisada silenciosa (Figura 2):

 (fonte: referência 5)

A diminuição do vetor de força de reação do solo significa uma redução das forças compressivas sobre as articulações. Isso implica prevenção (ou recuperação mais rápida) de diversos tipos de lesões dos membros inferiores, como fraturas por estresse e tendinopatias (tendinites)(6,7). Além disso, a diminuição da compressão sobre as articulações pode diminuir a progressão da degeneração em pessoas com osteoartrite(8).

Interessante notar que os participantes dessas pesquisas flexionaram os joelhos e os tornozelos de forma intuitiva ao receberem as orientações de aterrissar silenciosamente. Essa maneira natural de amortecer o impacto das articulações dos membros inferiores no solo pode ser utilizada:

– por profissionais de Ed. Física que acompanham atletas, como forma de minimizar lesões;

– por Fisioterapeutas, durante exercícios em suas consultas, a fim de avaliar e orientar atividades mais seguras para seus pacientes.

Um detalhe importante sobre esse amortecimento natural é que uma maior diminuição do impacto do solo sobre as articulações dos membros inferiores deve envolver um maior movimento do tornozelo do que do quadril ou do joelho, pois foi verificado que a rigidez naquela articulação leva a uma compensação por parte dos joelhos e quadris, sobrecarregando-os, pois terão de flexionar mais para absorver o impacto com o chão. E essa maior amplitude de movimento do quadril e do joelho durante as atividades de salto vai solicitar um maior controle motor dos indivíduos com a finalidade de evitar lesões!

Nesse sentido, o fisioterapeuta pode avaliar possíveis bloqueios nos tornozelos de seu paciente, os quais podem sobrecarregar as demais articulações dos membros inferiores durante atividades que envolvam corrida, ocasionando as lesões mais recorrentes em corredores (como canelite, fasceíte plantar, dor anterior no joelho / patelar). Busca-se sempre o equilíbrio entre movimento articular e controle motor, minimizando o impacto com o solo e as lesões consequentes.

Em resumo: o som de aterrissagem pode ser utilizado como uma ferramenta de feedback para ajudar indivíduos a diminuir as forças compressivas (impacto) nas articulações, sendo utilizável em programas desportivos de prevenção como forma de orientação para treinamento neuromuscular.


Referências:

1.        Tovell A, Mckenna K, Bradley C, Pointer S. Hospital separations due to injury and poisoning 2009-10. Aihw. 2009;(69).
2.        Stevenson M, Finch C, Hamer P, Elliott B. The Western Australian sports injury study. Br J Sports Med [Internet]. 2003;37(5):380–1. Recuperado de: http://www.scopus.com/inward/record.url?eid=2-s2.0-0141957267&partnerID=40&md5=0e91155647f54117bc10e5a2ec5f7fde
3.        McNair PJ, Prapavessis H, Callender K. Decreasing landing forces: effect of instruction. Br J Sports Med. 2000;34(4):293–6.
4.        Milner CE, Fairbrother JT, Srivatsan A, Zhang S. Simple verbal instruction improves knee biomechanics during landing in female athletes. Knee. 2012;19(4):399–403.
5.        Wernli K, Ng L, Phan X, Davey P, Grisbrook T. The relationship between landing sound, vertical ground reaction force and kinematics of the lower limb during drop landings in healthy males. J Orthop Sport Phys Ther. 2016;EPub(3):1–22.
6.        Brukner P, Bennell K. Stress fractures in female athletes. Diagnosis, management and rehabilitation. Sports Med. 1997;24(6):419–29.
7.        Gaida JE, Cook J. Treatment options for patellar tendinopathy: Critical review. Vol. 10, Current Sports Medicine Reports. 2011. p. 255–70.
8.        Mizrahi J, Susak Z. In-vivo elastic and damping response of the human leg to impact forces. J Biomech Eng [Internet]. 1982;104(1):63–6. Recuperado de: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?cmd=Retrieve&db=PubMed&dopt=Citation&list_uids=7078120
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