A Febre de Chikungunya

A Febre de Chikungunya (esse é o nome completo da doença) é causada pelo vírus Chikungunya (CHIKV), transmitido pela picada de fêmeas infectadas dos mosquitos Ae. Aegypti e Ae. albopictus (Figuras 1 e 2). Há ainda a possibilidade de transmissão vertical, ou seja, durante o parto, o que muitas vezes provoca infecção grave no recém-nascido. O vírus foi isolado inicialmente na Tanzânia em 1952, havendo relatos de surtos em vários países do mundo desde então. [1]

 

 Figura 1 – Aedes albopictus.

Figura 2 – Aedes aegypti.

Atualmente, o vírus encontra-se bastante disseminado no mundo, não sendo exclusivo de países em desenvolvimento (Figura 3).

Figura 3 – Áreas com transmissão do vírus chikungunya no mundo. [2]

Sinais e sintomas

 

Os sinais e sintomas são parecidos com os da dengue – febre de início súbito, dores nas articulações e músculos, cefaleia, náusea, fadiga e exantema [1]. O nome Chikungunya deriva de uma palavra em Makonde, língua falada por um grupo do sudeste da Tanzânia e norte de Moçambique, e significa “aqueles que se dobram”, descrevendo a aparência encurvada de pessoas que sofrem com as dores inflamatórias. Por isso, deve-se fazer um diagnostico diferencial da dor lombar, buscando sua verdadeira causa, a qual nem sempre está associada à infecção pelo CHIKV.

Nas articulações normalmente não são observados os sinais inflamatórios de calor e vermelhidão, mesmo com dor presente. Portanto, devem ser examinadas criteriosamente para outras características (Figuras 4 a 6) [3,4]:

  • aumento do volume (edema articular);
  • crepitação ou estalidos;
  • deformidade;
  • limitação dos movimentos, principalmente com rigidez matinal (> 1 hora);
  • dor ou atrofia dos músculos próximos;
  • surgimento de nódulos.

 Figura 4 – Nódulos articulares [3,4].
 Figura 5 – Edema [3,4].
 Figura 6 – deformidades articulares[3,4].
Num trabalho que acompanhou 76 pacientes durante até 36 meses, foram encontrados[3]:
  • 45% com dores articulares permanentes;
  • 24% conseguiram se recuperar, mas tiveram novos casos de dor (recidivas);
  • 31% obtiveram completa recuperação dos sintomas.
Por que acontecem essas dores articulares? Elas são decorrentes da resposta inflamatória induzida pelo vírus ou seus produtos no próprio tecido articular. Dessa forma, mesmo que haja melhora da dor, deve-se observar por mais alguns dias porque o paciente pode ainda manifestar inflamação, com reaparecimento da dor.
Em geral, as articulações são acometidas simetricamente, ou seja, em ambos os lados. Na fase aguda, praticamente nenhuma articulação é poupada da dor e da inflamação. Na fase crônica, há uma ênfase nas “juntas” mais distais (punho, dedos, tornozelo) (Figura 7).

Figura 7 – distribuição do acometimento articular, nas fases aguda e crônica[5].

E um número importante dos casos se torna crônico: um trabalho publicado em 2015 trouxe dados de 1,2 milhão de pessoas acometidas pela febre chikungunya no mundo, as quais desenvolveram algum tipo de reumatismo crônico articular. Na américa latina, cerca de 400.000 casos desses tipos haviam sido detectados. Estamos, portanto, diante da possibilidade de uma epidemia de doenças articulares crônicas[6].

Outras manifestações encontradas por estudiosos foram (Figura 8)[7]:

Figura 8 – outras manifestações articulares da febre de chikugunya[7].

Acompanhamento medicamentoso

 

A terapêutica utilizada para a chikungunya é baseada nos sintomas, com foco na hidratação e no repouso, principalmente na fase aguda da doença. Os guidelines sugerem que o acompanhamento medicamentoso seja feito com médico clinico geral / saúde da família. O Fisioterapeuta pode auxiliar na continuidade do tratamento no consultório, no domicílio e no posto de saúde (quando há equipe do Núcleo de Apoio à Saúde da Família – NASF, nos dois últimos casos). Apenas nos casos graves ou de manifestações atípicas deve-se buscar acompanhamento especializado, com reumatologista e outros especialistas, inclusive com indicação para internamento hospitalar (Quadro 1)[8].

O tratamento medicamentoso em si foge ao escopo desse texto, mas vale deixar um alerta: a auto-medicação pode ser extremamente perigosa nessa doença, então sugere-se evitar tomar medicamentos por conta proporia ou por indicação de pessoas que não sejam devidamente capacitadas para isso.

E a fisioterapia, como atua nos casos da chikungunya?

O trabalho do fisioterapeuta nesses casos inclui [1,7]:

  • verificar o acometimento articular, periarticular (ao redor das articulações); dos tendões e dos músculos;
  • proteger as articulações, diminuindo sua inflamação;
  • preservar o tônus muscular;
  • recuperar o movimento normal indolor;
  • preservar a autonomia do indivíduo;
  • traçar conduta e orientações de acordo com o estágio da doença do paciente.

Seguem alguns exemplos de condutas utilizadas:

  • na fase aguda, em que a inflamação e a dor são importantes, são recomendadas compressas frias como medida analgésica, com aplicações de 20 minutos, de 4 em 4 horas;
  • nos casos em que o inchaço é importante, a drenagem linfática manual pode ajudar;
  • ainda na fase aguda, o repouso é importante para evitar o aumento da inflamação articular e a evolução para a fase subaguda; nesses casos, o fisioterapeuta deve orientar o correto posicionamento dos membros, favorecendo a proteção articular e o retorno venoso;
  • nas fases subaguda ou crônica, o fisioterapeuta deve avaliar a possibilidade de incluir exercícios ativos, na tolerância do indivíduo. Afinal, o repouso absoluto de forma prolongada pode ser ruim para a articulação;
  • exercícios isométricos, alongamentos, mobilização passiva e ativa das articulações devem ser realizados e orientados para o paciente realizar em casa, no intervalo entre consultas;
  • orientações sobre as atividades no lar e no trabalho devem ser reforçadas, favorecendo a proteção articular e uma evolução adequada para recuperação total. O retorno às atividades físicas e ao trabalho devem ser gradativos, respeitando o limite das dores, evitando sobrecarregar as articulações.

Na ausência de vacinas ou drogas efetivas contra o vírus, a única forma de prevenir a doença é, atualmente, o controle vetorial (mosquito), o que também reduzirá o número de casos de dengue[9]. Infelizmente, em algumas regiões do Brasil, ainda falta abastecimento de água (que leva à necessidade de armazenamento) e são precárias as condições de saneamento (que resultam em água parada nas ruas), dificultando esse controle.

Visto tudo isso, verificamos a importância da febre chikungunya em todo o mundo. É causa importante de incapacidade funcional, gerando altas taxas de falta ao trabalho, portanto custos elevados para os setores público e privado[7].

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Referências
1.        Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Febre de Chikungunya manejo clínico. Ministério da Saúde Secr Vigilância em Saúde. 2015;28.
2.        Azevedo R do S da S, Oliveira CS, Vasconcelos PF da C. Chikungunya risk for Brazil. Rev saúde pública [Internet]. 2015;49:58. Available from: http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=4617438&tool=pmcentrez&rendertype=abstract
3.        Schilte C, Staikovsky F, Couderc T, Madec Y, Carpentier F, Kassab S, et al. Chikungunya Virus-associated Long-term Arthralgia: A 36-month Prospective Longitudinal Study. PLoS Negl Trop Dis. 2013;7(3).
4.        Essackjee KD, Goorah S. Residual periarticular complications of chikungunya virus infection in Mauritius. 2016;2:44–9.
5.        Miner JJ, Yeang HXA, Fox JM, Taffner S, Malkova ON, Oh ST, et al. Brief report: Chikungunya viral arthritis in the United States: A mimic of seronegative rheumatoid arthritis. Arthritis Rheumatol. 2015;67(5):1214–20.
6.        Rodriguez-Morales AJ, Cardona-Ospina JA, Villamil-Gómez W, Paniz-Mondolfi AE. How many patients with post-chikungunya chronic inflammatory rheumatism can we expect in the new endemic areas of Latin America? Rheumatol Int [Internet]. 2015;35(12):2091–4. Available from: “http://dx.doi.org/10.1007/s00296-015-3302-5
7.        Simon F, Javelle E, Cabie A, Bouquillard E, Troisgros O, Gentile G, et al. French guidelines for the management of chikungunya (acute and persistent presentations). November 2014. Med Mal Infect. 2015;45:243263.
8.        Rajapakse S, Rodrigo C, Rajapakse A. Atypical manifestations of chikungunya infection. Vol. 104, Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene. 2010. p. 89–96.
9.        Nunes MRT, Faria NR, de Vasconcelos JM, Golding N, Kraemer MU, de Oliveira LF, et al. Emergence and potential for spread of Chikungunya virus in Brazil. BMC Med [Internet]. 2015;13(1):102. Available from: http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=4433093&tool=pmcentrez&rendertype=abstract
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