Heelys: o tênis com rodinha que virou moda no país

Os tênis com rodinhas retornaram à moda no Brasil no ano passado. Se considerarmos que a criançada está muito fissurada em celulares e videogames, parece uma boa ideia incentivar a atividade física através desses calçados. Mas existem alguns cuidados a serem observados.

Esse calçado foi criado nos Estados Unidos no começo dos anos 2000 (Heelys). Dados de 2007 mostram que até essa data tinham sido vendidos 10 milhões de pares em todo o mundo.

Quando o tênis é utilizado na posição de equilíbrio sobre as rodinhas (Figura 1), com as pontas dos pés levantadas e o peso do corpo sobre os calcanhares, a tendência biomecânica é de queda para trás. Dessa forma, as lesões mais preocupantes que se pode esperar são as de dano na cabeça. Há casos de crianças que já caíram dessa forma perigosa, apresentando concussões. Mas como vamos ver adiante, os dados mostram que as fraturas de membros superiores são o tipo de lesão mais frequente.

Figura 1 – posição de equilíbrio com tênis de rodinha.

 

Órgãos internacionais alertam sobre a segurança durante o uso desses calçados

O Canada Safety Council, órgão responsável pela segurança pública naquele país, deixou clara a preocupação não só com as crianças que utilizam o calçado, mas com quem passa perto delas. Recomendaram o uso de equipamentos de proteção como capacete, cotoveleira e joelheira, deixando ainda a orientação de que leva cerca de um mês para o jovem se adaptar à patinação com a rodinha.  Além disso, baniram seu uso em prédios públicos, shoppings e escolas. E relatam que essa preocupação era anterior: em julho de 2003 A Korea Consumer Protection Board emitiu um alerta sobre as lesões causadas por quedas relacionadas ao Heelys. O documento mencionava fraturas nos membros superiores e inferiores, bem como possíveis contusões na cabeça, com o agravante de que “nenhum padrão de segurança se aplica ao produto”.

Na Inglaterra, a Royal Society for the Prevention of Accidents defendeu a importância do produto para “retirar as crianças da frente do PlayStation, oferecendo um exercício divertido que possibilita um exercício com ar fresco”. Mas não deixa de ressaltar algumas questões de segurança, como o uso de equipamentos de proteção; o máximo de atenção dos pais na fase de aprendizado e considerar comprar as versões de tênis com 2 rodinhas, que são mais fáceis de equilibrar.

O que a ciência tem a dizer sobre o Heelys?

Ainda não há estudos demonstrando que o uso desse tênis causa alterações no desenvolvimento, mas alguns profissionais têm recebido pacientes mirins com dores no joelho e no tornozelo relacionadas ao calçado. A musculatura anterior da perna (o músculo tibial anteriorFigura 2) não está preparada para uma manutenção prolongada da postura com a ponta do pé levantada (que é necessária para o uso das rodinhas), visto que na marcha normal (Figura 3) essa posição não dura mais que 1 segundo, de modo que isso pode causar alguns desconfortos, se utilizada por muitas horas seguidas.

Figura 2 – músculo tibial anterior.

Figura 3 – ciclo da marcha normal.

Um estudo realizado no setor de Ortopedia Pediátrica de um hospital da Cingapura apresentou dados importantes sobre lesões relacionadas ao uso do Heelys (e de suas cópias piratas, bastante comuns naquela região). De fevereiro a junho de 2004, 37 crianças, com 4 a 12 anos de idade, apresentaram danos mais importantes: uma apresentou fratura em dois ossos do metatarso; 20 tiveram fraturas distais do rádio; 14 sofreram machucados nos cotovelos; 1 teve fratura de clavícula e 1 fraturou um dedo. Nenhuma delas estava utilizando equipamento de segurança no momento da queda.

Uma pesquisa canadense realizada de junho de 2005 a junho de 2007 demonstrou que 75% das lesões causadas pelo uso do calçado com rodinhas foram nos membros superiores. Quando comparou bicicleta, patinete, patins e o tênis com rodinha, 60,5% do número de fraturas aconteceu nas crianças que usavam o último produto. Praticamente 100% dos 43 jovens  entrevistados durante essa pesquisa não utilizavam equipamento de segurança enquanto brincavam com o tênis.

Um trabalho irlandês confirmou que a maioria das lesões ocorreu nos membros superiores; com a maioria dos praticantes sem equipamentos de segurança. Cerca de 20% das lesões aconteceram no primeiro uso do calçado, e 36% delas ocorreram ainda na fase de aprendizagem (até 5 tentativas).

Em 2007, apenas 3 dos 13 pacientes de uma pesquisa realizada no Hospital Infantil de Miami (Miami Children’s Hospital) que sofreram lesões relacionadas ao uso do tênis com rodinhas relataram que gostariam de continuar brincando com esse produto. Todavia, 100% dos pais disseram que não comprariam outro par e nem vão mais deixar seus filhos utilizarem os que já têm.

Por fim, um trabalho preliminar, realizado em Chicago e publicado em 2009, trouxe alterações da marcha e da biomecânica dos membros inferiores. Os autores relacionam isso ao fato de a garotada não retirar a rodinha após a brincadeira, o que possibilita seu uso como um calçado normal. Comparando o Heelys com um tênis esportivo comum, foi visto que mesmo quando usado sem rodinha, apresentou um aumento de 35% de pico de pressão no retropé (calcanhar) e de 69% no antepé. Em outras palavras, há um maior estresse sobre o pé, o que pode significar um aumento no risco de lesões crônicas, principalmente esporão do calcâneo, de acordo com os autores. Eles também reforçam a ideia de que a manutenção da postura de levantar a ponta do pé para deslizar com o uso da rodinha pode gerar dores na região anterior da perna, ou na frente da articulação do tornozelo. Outro dado interessante é que andar com as rodinhas no calcanhar transfere o peso do corpo para frente, o que leva o indivíduo a realizar uma série de alterações, como maior flexão do joelho e inclinação do tronco para frente, a fim de evitar a queda para trás, que é responsável por cerca de 76% dos acidentes com esse calçado.

E qual a opinião da fabricante?

A fabricante original norte-americana deixa de forma explícita a recomendação de se utilizar equipamentos de segurança comuns a diversos esportes, conforme vídeo demonstrativo abaixo.

 

A empresa também recomenda que o uso não passe de duas horas diárias. E deixa claro que seu calçado pode ser considerado um dispositivo desportivo, como patins tradicionais ou skates. O problema é que eles são vendidos em lojas de calçados comuns, então os pais muitas vezes os consideram tão seguros quanto.

Resumindo…

  • não substituir o calçado escolar por tênis com rodinha. Por mais divertido que possa ser, seu uso por várias horas seguidas pode acarretar problemas musculares e articulares, bem como aumentar o risco de acidentes. De fato, muitas escolas já baniram seu uso;
  • bom senso é a regra quando utilizado em ambientes públicos, como shopping centers. Além do risco de quedas, as crianças podem esbarrar em outras pessoas;
  • falando em bom senso, cuidado com o tipo de solo no qual ele é utilizado. Terrenos lisos (como de shopping centers) permitem o desenvolvimento de maior velocidade; enquanto solos mais acidentados favorecem o travamento das rodinhas, predispondo a quedas;
  • ficou claro que o uso de equipamentos de proteção é muito indicado. Pode evitar lesões importantes em caso de queda. E quando se fala em fratura, a prevenção é o melhor negócio!
  • se for utilizar o tênis para caminhar normalmente, retirar as rodinhas;
  • antes de sair para lugares públicos, treinar em casa, com auxílio de alguém responsável;
  • quando utilizado no modo de rodinhas, evitar que as pernas fiquem lado a lado, pois isso diminui o equilíbrio, aumentando a chance de quedas. Um pé deve ficar adiante do outro;
  • é fundamental que a criança tenha os estímulos esperados para a sua idade, em termos de desenvolvimento motor, como correr e pular, sem calçados. Isso ajuda a fortalecer os pés e todo o sistema musculoesquelético dos membros inferiores, preparando-os para naturalmente amortecer choques, e desenvolvendo a coordenação motora.
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José Candido
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